Ciro Gomes mexe com a política cearense mesmo sem ser pré-candidato
Algo incomum está acontecendo no cenário político cearense: Ciro Gomes, que sempre foi reconhecido pelo verbo forte e pela presença constante no debate público, agora opta por um silêncio estratégico. E esse silêncio tem provocado exatamente o oposto do que se esperaria: inquietação, especulações e até medo entre aliados e adversários.
Blogs, sites e podcasts do Ceará passaram a tratar o “não pronunciamento” de Ciro como um elemento político em si. O tucano, que sequer lançou seu nome como pré-candidato ao governo do estado em 2026, tornou-se protagonista pela ausência — e não pela ação.
O lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (NOVO) deveria
marcar uma afirmação da direita cearense rumo a 2026. Mas o que se viu no
evento foi algo, no mínimo, estranho: falou-se mais em Ciro Gomes do que no
próprio Girão.
A atmosfera sugeria que o encontro tinha mais de movimentação tática do que de empolgação eleitoral. A presença do nome de Ciro pairando sobre a cerimônia reforçou a impressão de que, mesmo fora da arena, ele ainda dita o ritmo das peças no tabuleiro.
As conversas anteriores entre PL, União Brasil, PP e PSDB sobre a
possibilidade de reunir forças em torno de Ciro desaguaram em críticas
públicas, inclusive conduzidas pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Uma
demonstração clara de que, mesmo para setores da direita, Ciro é uma figura
capaz de desorganizar alinhamentos.
Ao mesmo tempo, o PT cearense e aliados aproveitaram para tentar desgastar o ex-ministro. Era a chance de desqualificar o possível adversário antes mesmo de ele se lançar. Mas quanto mais forçavam críticas, mais o silêncio de Ciro parecia confundir seus detratores.
A suspensão do suposto acerto do PL para apoiar Ciro ao governo levantou
suspeitas. Erro de cálculo? Pressão externa? Ou movimento estratégico para
testar o ambiente político?
Independentemente da motivação, o efeito foi claro: a pauta voltou a orbitar em torno de Ciro. Ele não falou, não confirmou, não rechaçou. E justamente por isso saiu maior da confusão. A política, às vezes, age como a física: onde há vácuo, o ar corre para preencher. E no vácuo de Ciro, todos correram.
A divulgação da pesquisa do instituto Real Time Big Data colocou ainda
mais gasolina no debate. Mesmo sem campanha, sem agenda pública e sem dar
declarações, Ciro apareceu com força no levantamento — um indicativo de que sua
presença política, ao contrário do que alguns desejam, não depende de
holofotes.
Isso ajuda a explicar por que tantos adversários se esforçam em atacá-lo. Ciro, neste momento, é uma ameaça potencial. E ameaças silenciosas assustam mais.
O silêncio como arma
política
Na política, há momentos em que falar é estratégico — e outros em que o
silêncio fala mais alto. Ciro Gomes parece ter entendido isso com precisão
cirúrgica. Seu silêncio impõe incerteza, provoca turbulência entre adversários
e obriga todos os lados a se moverem antes da hora.
Não se sabe se Ciro será candidato. Não se sabe sequer se deseja ser.
Mas hoje, no Ceará, ele é o fator que mais desestabiliza o tabuleiro —
justamente porque age sem agir.
O tucano está provando que, na política, não falar pode ser o discurso mais poderoso.


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